"Eles não usam Black-Tie" MIS Cine Santa Tereza - Santa Tereza Tem
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“Eles não usam Black-Tie” MIS Cine Santa Tereza

Um oportunidade para quem não viu ou quer ver de novo o icônico filme Eles não usam Black-Tie. Com direçãode Leon Hirsman e no elenco Fernanda Montenegro, Gianfrancesco Guarnieri e Carlos Alberto Riccelli.

A exibição será no Projeto Cinema Falado, no MIS Cine Santa Teresa o filme A apresentação gratuita será na terça-feira, dia 20, às 19h30. A promoção é do Centro de Estudos Cinematográficos (CEC) e do Instituto Humberto Mauro.

“Eles não usam Black-Tie” (Brasil, 1981, 2h14), de Leon Hirszman. Classificação indicativa: 16 anos.

Cinema Falado

Cinema Falado é um projeto do Centro de Estudos Cinematográficos de Minas Gerais (CEC-MG) e do Instituto Humberto Mauro, em memória do crítico e cineasta Geraldo Veloso, com o apoio do Museu da Imagem e do Som (MIS), do jornal O TEMPO, da rádio SUPER FM e da Contorno Áudio & Vídeo.

Uma reflexão sobre o filme:

Dirigido por Leon Hirszman, nome conhecido do Cinema Novo, mas nem sempre lembrado e, ainda hoje, pouco visto e discutido, “Eles Não Usam Black-Tie” é a adaptação cinematográfica da peça homônima de Gianfrancesco Guarnieri, encenada pela primeira vez em 1958 no politizado Teatro de Arena. O título da peça é uma provocação ao TBC (Teatro Popular de Comédia), conhecido como teatro “de entretenimento”, que divertia o público com textos que geralmente retratavam a burguesia e estavam distantes da realidade brasileira – o povo não usa black-tie.

Panorama realista das favelas dos grandes centros urbanos, a peça foi sucesso de público, abordando temas como o movimento operário no Brasil e as difíceis condições de vida dos trabalhadores. Hasteia uma bandeira democrática e humanista, nem um pouco imparcial. Numa temporada na Bahia, a apresentação incomodou os militares. Nos dias atuais, ainda incomoda e provoca reflexões.

Tião (Carlos Alberto Riccelli) é um jovem operário que fura o movimento grevista por medo de perder o emprego e por não acreditar no poder transformador da consciência das massas. Seu pai Otávio, por sua vez, é um líder sindical veterano, leitor de autores socialistas e tem ideias progressistas. Tendo como motes o motim e o choque entre gerações, somos levados a refletir sobre os âmbitos individual e coletivo, e sobre o quanto formação, informação e engajamento pesam nas escolhas de quem tem e de quem não tem consciência de ser uma parte importante, ainda que subjugada, da sociedade. Pai e filho têm posições ideológicas e morais divergentes.

Ocupado com a luta pelos direitos do coletivo, Otávio foi um pai ausente. Tião começa a história com a notícia de que sua namorada Maria (Bete Mendes) está grávida. Provavelmente será um pai mais presente, mas alienado. Não percebe que sem direitos trabalhistas, sem lutar por melhorias salariais coletivas, não terá condições de oferecer uma vida digna à sua família. Ele pensa exatamente o contrário: sua família é humilde, mora na periferia, justamente porque seu pai não se esforçou mais, “perdendo tempo” com a militância sindical. Para Tião, a luta não é válida, ele não enxerga a engrenagem da qual é apenas uma pequena peça, supostamente irrisória, mas que pode parar a máquina caso se una à maioria das outras pequenas peças. A única possibilidade que vê para si é uma ascensão milagrosa individual – é uma lógica capitalista pouco provável de se realizar.

Com músicas de Adoniran Barbosa, Radamés Gnatalli, Chico Buarque e Guarnieri, “Eles Não Usam Black-Tie” foi fotografado por Lauro Escorel, e traz no elenco Fernanda Montenegro, no papel da matriarca Romana, esposa de Otávio; Francisco Milani; Lélia Abramo, que deu vida na primeira montagem da peça a Romana; Fernando Alves da Silva, numa de suas poucas aparições após ter protagonizado “Pixote – A Lei do Mais Fraco”; e Milton Gonçalves. Recebeu o Prêmio Especial do Júri no Festival Internacional de Cinema de Veneza; e o de melhor filme tanto no Festival de Havana quanto no Festival Internacional de Cinema de Valladolid.

Realizado em 1981, nos últimos momentos da ditadura, poucos anos depois das greves do ABC e da extinção do Ato Institucional número 5, o filme é uma homenagem de Hirszman a Guarnieri (que na primeira montagem da peça foi Tião, o filho, e, passados 20 anos, encarna Otávio, o pai), e também é um canto à liberdade, à justiça e à ética,temas universais e que nos devem ser sempre caros, já que andam cada vez mais raros nestes dias tão estranhos. (Matheus Antonio – junkiesvilipendiados.blogspot.com)

Os comentários, logo após a exibição é de Pedro Vaz Perez, jornalista, professor do curso de cinema e audiovisual da PUC Minas e pesquisador em história do cinema brasileiro. Atualmente, realiza pesquisa de doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense (UFF).

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