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Curiosidades: São Jorge de Ogum

São Jorge de Ogum é comemorado no dia 23 de abril

Por Carlos Felipe Horta

Se há um santo lendário é São Jorge, cujo dia é comemorado hoje, 23 de abril. No Rio de Janeiro é até feriado e em outros lugares, a data é celebrada com destaque, bastando lembrar Nova Lima onde, durante muito tempo, existiu a “Cavalhada de São Jorge”, herança dos ingleses da Mina do Morro Velho.

É bom lembrar que São Jorge é o santo padroeiro da Inglaterra, tanto assim que, nas cargas guerreiras de antigamente, os ingleses tinham uma frase de chamada: “Por São Jorge e pela Inglaterra”.

São Jorge de Ogum

Quem foi esse tal de Jorge?

Mas afinal quem foi este santo que, há algumas décadas atrás, chegou a ser retirado do calendário católico, sob a alegação de não existirem informações concretas sobre ele. A retirada foi abolida e São Jorge, que também é padroeiro da Síria, tem seu culto seguido e respeitado.

Segundo as tradições, Jorge nasceu na Palestina e, no tempo do imperador Diocleciano, após se tornar tribuno militar, foi nomeado membro do Conselho Imperial. Quando Diocleciano, entretanto, decretou perseguição aos cristãos, ele se rebelou contra a decisão, reprovando o imperador, frente à frente.

Mesmo com as ponderações de Deocleciano de que pensasse um pouco mais em sua carreira, Jorge não o ouviu, sendo então atado a uma roda com pontas de aço agudas que, a cada girada, lhe arrancavam um pedaço da carne. Pensando que estivesse morto, os algozes o deixaram onde estava mas, três dias depois, ele se levanta, para espanto geral, e vai novamente ao imperador, protestando.

É, então, amarrado a um leito de cal vivo, passando ainda por aplicações de ferro em brasa e sendo obrigado a tomar veneno. Jorge ainda resiste e pede que o levem diante da estátua de um deus pagão. A estátua cai em pedaços, com as pessoas fugindo apavoradas. Deocleciano, em última instância, ordena que ele seja decapitado.

Até aqui os dados históricos, mas a lenda sobre o santo cavaleiro vai mais além. Tanto assim que é apresentado como salvador uma princesa que iria ser devorada por um dragão, que é morto por ele.

Na cultura popular brasileira, muita gente o enxerga dentro da lua, montado em seu cavalo e atacando o dragão. Quadrinhas e até cantigas infantis lembram o episódio.

Ele também ocupa um papel importantíssimo nas religiões afro-brasileiras por causa de sua sincretização com Ogum, orixá guerreiro e que domina a mineração, aço e ferro. Dentro desta linha, ele seria, no panteão afro-brasileiro, um dos patronos de Minas Gerais.

Na religião de origem africana, Ogum é dos mais respeitados, com um poder, que divide em grande parte com Exu, sobre caminhos e encruzilhadas. Seu metal é o ferro e ele traz, nas mãos, uma espada com a qual executa, nas solenidades, uma coreografia forte e candente. Sua saudação é “ogunhê patacuri” e as comidas prediletas o feijão-cavalo, feijão-preto, azeite de dendê e carne bovina. Suas cores rituais são diversas. Em alguns lugares, azul-marinho. Em outros, o vermelho ou o vermelho e preto.

Seu modo de agir e sua força como “abridor dos caminhos” fizeram com que seja inspiração na cultura popular e nas artes de um modo geral, com muitas músicas falando dele e seu sincretismo com São Jorge. Uma destas músicas é a carnavalesca “General da Banda” que, por sinal, tem entre seus autores um nome importante dos cultos afro-brasileiros, Tancredo da Silva Pinto. Para evitar a censura, em vez de “General da Umbanda”, a música virou “General da Banda”.

Detalhe importante: no calendário afro-brasileiro, 2019 é um ano governado por Ogum e isto explica muita coisa que está acontecendo por aí e que pode continuar acontecendo. Por isso mesmo não custa nada prestar homenagem a ele e ao santo. Viva São Jorge, Sarava Ogum!

Carlos Felipe Horta é jornalista, estudioso das religiões afro-brasileira, folclorista e colaborador do Santa Tereza Tem

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