Artigo: passagem do ano segundo Carlos Drummond de Andrade - Santa Tereza Tem
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Artigo: passagem do ano segundo Carlos Drummond de Andrade

ano novoSimpatias mil já foram publicadas nos jornais, tevês e rádios nos últimos dias. Mostrando desde que se deve vestir de branco como tomar banho de pipocas, passando por distribuir folhas de louro entre os amigos, acender sete velas em formato de estrela, limpar as plantas, colocar inhoque no jantar ou ceia da noite, carregar dois cravos vermelhos na roupa, colocar flores vermelhas num vaso ao lado de frutas novas, escrever seus desejos para 2014 num papel colocado ao lado de um incenso queimando e muitas e muitas e muitas outras simpatias.

Como todo mundo já escolheu a sua, nos abstemos de dar mais sugestões. Em vez disso, colocamos um texto de Carlos Drummond de Andrade, “Passagem de Ano”, em que o poeta, com aquele seu jeito itabirano de ser, nos obriga a, pelo menos, pensar um pouquinho. Eis o texto de CD:

“O último dia do ano não é o último dia do tempo. Outros tempos virão e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida. Beijarás bocas, rasgarás papéis, farás viagens e tantas celebrações de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia e coral que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor, os irreparáveis uivos do lobo, na solidão.

O último dia do tempo não é o último dia de tudo. Fica sempre uma franja de vida onde se sentam dois homens. Um homem e seu contrário, uma mulher e seu pé, um corpo e sua memória, um olho e seu brilho, uma voz e seu eco, e quem sabe até se Deus…

Recebe com simplicidade este presente do acaso. Mereceste viver mais um ano. Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos. Teu pai morreu, teu avô também. Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte, mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo, e de copo na mão esperas amanhecer. O recurso de se embriagar, o recurso da dança e do grito, o recurso da bola colorida, o recurso de Kant e da poesia, todos eles… e nenhum resolve. Surge a manhã de um novo ano. As coisas estão limpas, ordenadas. O corpo gasto renova-se em espumas. Todos os sentidos alerta funcionam. A boca está comendo vida. A boca está entupida de vida. A vida escorre da boca, lambuza as mãos, a calçada. A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.”

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