E a música parou... - Santa Tereza Tem
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E a música parou…

Hoje, pegando um táxi  com o motorista Afrânio, do ponto da Praça,comentei que fazia um bom tempo que não via o Jorge Melo, o taxista músico de Santé. E ele me deu a triste notícia de que o Jorge havia sido morto a tiros, durante um assalto, no Alto Vera Cruz, há quatro meses.

Isso é motivo para tristeza e revolta, quando ocorre com qualquer pessoa, mas tocou mais meu coração, por tê-lo conhecido. Jorge era um cara alegre, gentil e que além da família e do trabalho, se dedicava à música. Em seu porta malas havia uma flauta, gaita e violão. 

Veio então a minha cabeça um ensaio na Praça Duque de Caxias, da turma reunida por Toninho Horta, para apresentar o show “As cores do Clube”, uma homenagem aos 50 anos do Clube da Esquina. Estavam lá grandes músicos em um ensaio aberto, quando do nada ouviu-se o som doce de uma gaita. Timidamente, Jorge se aproximou do grupo acompanhando a canção. Os músicos na mesma hora, o convidaram para participar da cantoria. Essas coisas, que acontecem em Santa Tereza. Ele tocou junto mais um pouco e  saiu, pois tinha de continuar o seu trabalho no táxi. E ele comentou, ” “Foi muito emocionante, tremi um pouco, mas foi muito bom, uma glória”.

Sua humildade, sua sensibilidade para a música e seu sorriso,  despertaram o interesse fazer com ele uma reportagem para o Santa Tereza Tem. E foi feita pelo  xxxx.  Como homenagem da equipe do Santa Tereza Tem repostamos a reportagem feita com o taxista músico de Santé pelo jornalista Rafael Campos. Que ele esteja animando com sua música o outro lado da vida.

Viagem sonora

Por Rafael Campos, em dezembro de 2013

jorge taxista

Ficar parado no trânsito é algo rotineiro no trânsito de Belo Horizonte. Normal em uma cidade onde a frota de veículos já ultrapassa a casa de 1,5 milhão. Para aproveitar o tempo ocioso dentro do carro há mulheres que retocam a maquiagem, outros mexem no telefone celular (mesmo sendo infração grave), sem falar que há aqueles que preferem aumentar o som e ouvir aquela música preferida.

 De forma peculiar, o taxista Jorge Melo Sousa, de 56 anos, aproveita o congestionamento ou até mesmo os minutos no semáforo para tocar um instrumento. E instrumento é o que não falta. No porta-malas a bagagem é a flauta e o violão e a gaita. “Você não tem ideia como é estressante o trânsito dessa cidade, por isso, tocar uma música é uma espécie de válvula de escape”, afirma o taxista, que aprendeu a tocar sozinho gaita, flauta e violão.

Alegre e brincalhão é figura conhecida no ponto de táxi de Santa Tereza. Seus companheiros de trabalho curtem o seu som e todo mundo, no Santáxi, dá notícia de Jorge. É só perguntar pelo motorista músico. 

ataxi porta malas

Mas onde é que os passageiros entram nessa história? Bom de papo, ele conta que “quando o carro está parado, pego a flauta, por exemplo, e começo a tocar e em cima da música, faço um arranjo”, diz. Seus clientes, o taxista garante, adoram a ideia, sendo que alguns já deram até gorjetas, uma espécie de cachê depois do pocket show. “Ninguém nunca reclamou, por isso acho que eles gostam”, brinca.

O repertório do taxista artista é variado. Mas, ele faz questão de avisar que não gosta de funk, hip hop ou de sertanejo universitário. Ele é fã da cantora britânica Amy Winehouse, falecida em 2011. “Gosto das canções Back to Black e Love is a losing game”. Mas Jorge Melo gosta também de Fagner, Zé Ramalho e dos representantes do Clube da Esquina, como Milton Nascimento, Gabriel Guedes e Lô Borges. O repertório expande ainda para jazz e blues. 

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Jorge acabou de adquirir seu quarto instrumento, um saxofone. “Infelizmente não vai dar para carregar comigo, por causa do tamanho”, diz. O músico ainda não aprendeu o instrumento, mas avisa que vai começar a treinar rápido para conhecê-lo.

Sua arte, por enquanto ele gosta apresentar apenas nas festas e churrascos da família. Jorge conta que já teve seu minuto de glória. O gostinho especial de tocar com os ídolos do Clube da Esquina, durante os ensaios do grupo “As Cores do Clube”, na praça Duque de Caxias, liderado pelo guitarrista Toninho Horta. “Foi muito emocionante, tremi um pouco, mas foi muito bom”, afirma.

Se você quiser  ser o próximo passageiro a ouvir o som de Jorge Melo, uma dica é pegar o taxi no tradicional ponto que fica em frente ao Bolão, na Praça Duque de Caxias. Será, com certeza, uma viagem sonora e divertida.

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